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A religiosidade e a espiritualidade são consideradas fatores contribuintes na melhora da qualidade de vida das pessoas, tendo em vista que auxiliam na construção de sentido ou propósito para as ações que realizam e para o futuro que buscam concretizar. 

Porém, espiritualidade e religiosidade não são sinônimos: a espiritualidade está relacionada ao significado da vida, com a crença em aspectos espiritualistas para justificar sua existência; já a religiosidade é compreendida como um conjunto de crenças e práticas institucionalizadas, como a frequência a cultos, missas, entre outros rituais.

Segundo dados do IBGE (2010), o Brasil possui um potencial religioso expressivo e alta prevalência de praticantes de religiosidade/espiritualidade, sendo que apenas 8% da população declara não ter alguma religião. Em 1988, a Organização Mundial de Saúde incluiu a dimensão espiritual no conceito multidimensional de saúde, indicando a necessidade de os profissionais de saúde incluírem este aspecto em suas práticas, isto porque, na inter-relação entre saúde mental e espiritualidade/ religiosidade, a segunda oferece recursos valiosos para o enfrentamento de situações estressantes inevitáveis na vida, mantendo um bom nível de saúde.

Nesse contexto, é importante que psicólogos acolham em suas práticas questões sobre espiritualidade e/ou a religiosidade tendo em vista o fato de a maioria dos brasileiros ter uma crença e também porque as pessoas, muitas vezes, querem falar com seus psicoterapeutas sobre esse aspecto de suas vidas. 

Como o psicólogo aborda a espiritualidade na clínica

Para Farris (2005), a psicologia e a espiritualidade podem ser entendidas, apesar das diferenças fundamentais, como dois universos simbólicos que usam conceitos diferentes para descrever um processo semelhante de construção, percepção ou criação de significado, não sendo, portanto, incompatíveis. Porém, ele assinala pertinentemente, que é a orientação e abertura do psicólogo que determinará ou não o alcance da relação terapêutica, possibilitando ou impedindo o alcance da dimensão espiritual em psicologia. A espiritualidade/religiosidade tanto pode expressar um processo maduro e bem integrado na busca de compreensão ou de significado para a vida, como também pode funcionar de maneira neurótica, defensiva ou adaptativa. Cabe ao psicólogo, com a devida abertura e capacitação, diferenciar e permitir a plena manifestação dessa estrutura humana no setting terapêutico.

Quando a espiritualidade é abordada na prática clínica, o psicoterapeuta não deve levantar questões a respeito de alguns preceitos religiosos, como a existência de Deus, vida após a morte ou milagres, por exemplo, mas sim compreender de que modo a pessoa se relaciona com sua crença e de que forma esta crença faz com que o sujeito compreenda aquilo que lhe acontece.

Para Moreira-Almeida et al (2006) e Tavares, Beria e Lima (2004) quatro questões sobre o papel da religiosidade na saúde mental do paciente são importantes investigar na prática clínica: 1) O paciente tem alguma forma de espiritualidade/religiosidade? 2) Pertence a uma comunidade religiosa? 3) Tem alguma crença espiritual que possa influenciar nos cuidados médicos? Qual a importância que o paciente atribui a estes aspectos da vida? 4) O paciente usa a religião ou a espiritualidade para ajudá-lo a lidar com sua doença, seu sofrimento, ou essas são fontes de estresse? Caso afirmativo, esta tem sido fonte de apoio ou de conflitos? Apresenta algum conflito ou questão espiritual que o preocupa? Tem alguém com quem conversar sobre estes tópicos?

Quando as pessoas passam por situações de luto e adoecimento, por exemplo, muitas conseguem encontrar um sentido para essas experiências por meio da espiritualidade, o que pode auxiliar no enfrentamento destas condições  e amenizar o sofrimento. 

Algumas pessoas acreditam que uma situação difícil pode servir para aprendizado ou para uma revisão do modo como viviam até então e, neste caso, a espiritualidade atua como um recurso de enfrentamento. 

Já outras podem se sentir abandonadas por Deus, visto que acreditam que a doença ou a perda de alguém querido é uma forma de castigo, o que pode intensificar ainda mais sua dor emocional.

Desse modo, o psicoterapeuta compreende de que forma a espiritualidade/religiosidade contribuem para a compreensão do sujeito em relação ao que ele vive, bem como da racionalidade religiosa/espiritual em que ele se constituiu e a partir da qual faz suas escolhas e se relaciona com outros aspectos da realidade. Se necessário, poderá então contribuir para uma reorganização da relação estabelecida pela pessoa com este aspecto da sua vida. 

A Psicologia utiliza o método científico de compreensão dos fenômenos. Neste sentido, trata-se de uma racionalidade distinta da religiosa. No entanto, ambos os conhecimentos coexistem e devem dialogar entre si. O processo psicoterapêutico busca compreender de que modo esse aspecto espiritual/religioso impacta nas questões psicológicas e vice-versa.

Apesar do crescente número de pesquisas que se dedicam a investigar a relação positiva entre saúde mental e espiritualidade/religiosidade, essa relação não encontra um lugar de relevância na formação do psicólogo. Por isso, torna-se importante criar espaços de discussão e esclarecimento sobre os conceitos de espiritualidade/religiosidade e sua relação com a saúde mental bem como criar estratégias quanto a sua presença na clínica.

Fontes:
https://conscienciapsicologia.com.br/espiritualidade/
http://www.scielo.br/pdf/epsic/v17n3/16.pdf

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