É cultural a idealização da maternidade e ai da mãe que direcione qualquer afeto negativo para si mesma e para com o bebê: inadimissível, não é? Existe um tabu, sim cultural, em relação ao tema gestação e depressão, afinal, a mulher deve estar radiante pelo nascimento de seu filho. Seria muita ingratidão não estar sentindo-se plena ao viver o “milagre da maternidade”.

O senso comum tende a esconder a real natureza da tarefa de vir a ser mãe. Há um processo de transformação psíquica que uma mulher precisa passar no ciclo gravídico-puerperal. Esse processo envolve três grandes momentos: a transformação da filha em mãe, a transformação da autoimagem corporal e a relação entre a sexualidade e a maternidade. Isso sem falar na preocupação que surge, para algumas, quanto ao retorno ao trabalho. Cada um destes temas requer uma reordenação psíquica que incide sobre as vicissitudes de cada mulher. A mentalidade, de que a chegada de um filho é isenta de ambigüidade, tende a dificultar o auxílio que estas mães precisam receber. Algumas mulheres não conseguem admitir para si mesmas que merecem ajuda, escondendo dos cônjuges e da família seu estado.

Todo ciclo gravídico-puerperal é considerado período de risco para o psiquismo devido à intensidade dessas experiências vivida pela mulher. Mesmo que se tenha uma boa organização psíquica, algumas mulheres podem se ver frente a situações em que a rede social falha.

A Depressão pós-parto (DPP) acomete entre 10% e 20% das mulheres, podendo começar na primeira semana após o parto e perdurar até dois anos. É um quadro clínico severo e agudo que requer acompanhamento psicológico e psiquiátrico, pois devido à gravidade dos sintomas, há que se considerar o uso de medicação.

fatores de risco que vêm sendo estudados e demonstram uma alta correlação com a DPP: mulheres com sintomas depressivos durante ou antes da gestação, com histórico de transtornos afetivos, mulheres que sofrem de TPM, que passaram por problemas de infertilidade, que sofreram dificuldades na gestação, submetidas à cesariana, primigestas, vítimas de carência social, mães solteiras, mulheres que perderam pessoas importantes, que perderam um filho anterior, cujo bebê apresenta anomalias, que vivem em desarmonia conjugal, que se casaram em decorrência da gravidez.

Muita atenção aos sintomas como irritabilidade, mudanças bruscas de humor, indisposição, doenças psicossomáticas, tristeza profunda, desinteresse pelas atividades do dia-a-dia, sensação de incapacidade de cuidar do bebê e desinteresse por ele, chegando ao extremo de pensamento suicidas e homicidas em relação ao bebê. O diagnóstico precoce é fundamental!

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Mas nem toda tristeza é depressão! Já ouviu falar do Baby Blues? A Tristeza Materna (baby blues), acomete até 80% das mulheres. Ele também é um estado de humor depressivo que costuma acontecer a partir da primeira semana depois do parto. Este humor é coerente com a enorme tarefa de elaboração psíquica citada anteriormente (transformação da filha em mãe, a transformação da auto-imagem corporal, a administração da relação entre a sexualidade e a maternidade).

Os sintomas como irritabilidade, mudanças bruscas de humor, indisposição, tristeza, insegurança, baixa auto-estima, sensação de incapacidade de cuidar do bebê e outros. De forma geral, a mulher sente que perdeu o lugar de filha sem que tenha ainda segurança no papel de mãe; que o corpo está irreconhecível, pois se já não é mais de uma grávida tampouco retomou sua forma original; que entre ela e o marido encontra-se um terceiro elemento.

Mas é vista como um quadro benigno, há medida em estas questões possam ser elaboradas, e regride por si só por volta do primeiro mês. Existe um estado denominado de Preocupação Materna Primária que se refere a um período que vai do fim da gestação até por volta do primeiro mês do bebê, em que a mulher teria uma hipersensibilidade às necessidades do bebê. Este estado tão necessário, caso fosse vivido fora da maternidade, seria considerado esquizóide e, no entanto, é fundamental para a vinculação com a criança. Faz parte deste estado uma certa dose de humor depressivo, já que para ser capaz de se adaptar à rotina de um bebê, de se adaptar à linguagem do recém-nascido, a mãe tem que baixar muito suas expectativas com relação à sua própria privacidade e à agitação do mundo externo.

O que as pessoas próximas podem fazer diante do humor depressivo que comumente se apresenta no pós-parto?

Compreensão! A família pode ajudar sendo compreensiva e apoiando a mãe neste momento único, sem cobrar atitudes idealizadas pela mídia. O que a mãe de um recém-nascido menos sente é completude. Uma gestante pode sentir-se assim e é o que se espera em algumas fases da gestação. Já a mãe de bebê vive exatamente o oposto, ela vive a incompletude, o vazio da barriga, a separação. Ela precisará de um tempo até que possa preencher este espaço.

São necessários todo apoio e compreensão para que a mãe recém nascida saiba que não há nada de errado com ela. Ser aceita em sua natureza de mãe ajuda muito a diminuir o mal estar, encurtando o baby blues drasticamente.

Está vivenciando ou conhece alguém que vivencia esse momento? Precisam de ajuda? Estamos à disposição para acolher!

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