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Comida e culpa: uma relação bem delicada

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Como não poderia deixar de ser, a busca por uma boa alimentação remonta aos primórdios de nossa existência. Quando obter algo que pudesse nos nutrir envolvia a caça ou a coleta em campos e florestas, a cada dia em que nossos ancestrais despertavam, com eles nascia uma nova jornada de busca de provisões – exatamente como ainda ocorre no reino animal.

E foi assim, após longos períodos de procura e com o avanço da civilização, que nosso sustento pôde ser obtido de maneira simples e fácil. Dizem os historiadores, inclusive, que a comida, na forma que a conhecemos hoje, em termos de sua disponibilidade e fartura (leia-se: basta andar alguns minutos até achar o que precisamos) aparece há menos de dois séculos.

Na verdade, o acesso criou uma série de facilidades para nossa vida cotidiana, entretanto, se formos considerar o tempo de nossa vida sobre o planeta (e a escassez pela qual passamos), não seria difícil compreender a razão pela qual temos uma natural atração aos alimentos mais calóricos.

Eu explico: nosso organismo ainda não teve tempo de absorver a mudança no ambiente (leia-se: comida facilmente acessível) e, ao prever tempos de possível privação – a exemplo de como sempre ocorreu-, nos faz buscar, de maneira instintiva, mais comida do que efetivamente precisamos. Como consequência, passamos a comer muito mais do que nosso organismo necessita, criando um natural descompasso nutricional.

E o problema não é apenas evolutivo, mas também educacional. Quando éramos jovens, fomos orientados (e elogiados) para comer tudo, pois isso nos ajudaria a ficar “grandes e fortes” (era uma coisa boa, lembra?). Mas, à medida que nos tornamos adolescentes, a mensagem começou a ser alterada: não deveríamos comer muito, caso contrário, “poderíamos engordar”.

Tínhamos sido “boas” crianças, pois sempre terminávamos com a comida no prato, mas depois passaram a nos dizer que não éramos tão bons assim, pois tínhamos comido tudo, sem restrições (e isso era ruim).

Ou seja, essas ordens parentais antagônicas, somadas à nossa biologia em plena transformação, nos ajudaram a desenvolver uma grande confusão na idade adulta acerca da alimentação.

Além disso, atualmente sabemos muito mais sobre o nosso processo alimentar do que em qualquer outra época de nossa existência (conhecemos a respeito dos efeitos do açúcar ou da gordura, por exemplo), mas, o verdadeiro equilíbrio entre a informação nutricional e a sensatez comportamental se tornou algo definitivamente delicado.

Adicione a isso, a mudança no padrão de beleza que a mídia e a sociedade preconizam há tempos, em que a beleza mudou progressivamente seu contorno e com ele vieram roupas cada vez menores (tamanho zero, já ouviu falar?) em função de corpos mais delgados – conduzindo-nos exatamente ao sentido oposto de nossa genética e de nossa história evolutiva. Assim, não seria de se espantar então que, com o passar do tempo, a anorexia e a bulimia nervosas tenham se tornado mais delineadas do que nunca em nossa sociedade.

Em tempos modernos, ao que tudo indica, não conseguimos ainda achar uma equação ideal que possa nos guiar a respeito de como nos posicionar sobre alimentação sem medo.

Passamos então a contar calorias – uma verdadeira tabuada mental -, em que até as crianças já estão adestradas na identificação da “dose” possível de ingestão calórica de cada refeição; sabemos a respeito dos vários tipos de dietas, do sódio em excesso, e por aí vão centenas de recomendações que sabemos tão bem de cabeça, salvaguardando-nos da obesidade (já que ela é, inclusive, uma epidemia mundial).

Decorrente dessa imensa paranoia social, surge um dos maiores efeitos colaterais da modernidade: a culpa. Comer não é mais apenas um ato prazeroso, mas carregado de arrependimento, medo e vergonha.

Hoje em dia, raramente vemos alguém se alimentando de maneira livre e leve, ou seja, sem pensamentos intrusivos de pesar ou remorso.

Embora historicamente tenhamos superado a escassez e possamos finalmente comer, devemos nos controlar o tempo todo – o que seguramente nos rouba o deleite de uma boa estada à mesa, resultado de uma má relação que desenvolvemos com a comida.

Como agir?

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Como psicólogo, lhe diria para se afastar da noção de que há “bons” e “maus” alimentos. A comida não é nem boa ou má. Creio que, atualmente, há um demasiado julgamento moral quando o assunto trata de alimentação. O ganho de peso vem, na verdade, muito mais de uma alimentação emocional e dos hábitos pobres, do que propriamente aquilo que ingerimos em um determinado momento de nosso dia.

Colocamos demasiada pressão sobre nós mesmos para ter uma dieta perfeita e equilibrada, ou seja, se comemos de maneira adequada, somos “bons” e saudavelmente corretos, mas se comemos de uma maneira inadvertida (um pedaço a mais de pizza ou bolo, por exemplo), deixamos a mesa nos sentindo mal, como se toda a refeição não tivesse valido a pena – um verdadeiro suplício mental.

Acha que isso é tudo? Não…

A tendência “fitness” ajuda a reforçar o sentimento de mal-estar, ao fazer com que as pessoas pensem que, além de comer controladamente (e, em muitos casos, fazer ginástica de maneira compulsiva), agora devem seguir também em direção aos alimentos orgânicos e mais naturais.

Conclusão

Entendo que a vida seja uma questão de equilíbrio, ou seja, fazer coisas que nos façam bem a maior parte do tempo. A comida não é apenas para alimentar nosso organismo, mas também tem como função alimentar nosso espírito.

Creio então que precisamos deixar de tropeçar nos momentos que, em teoria, deveriam ser de celebração. No nosso imaginário, alimentar definitivamente precisa se modificar. Reflita a respeito.

Algumas dicas

– Lembre-se que comer é uma questão de equilíbrio. Se você normalmente cuida de sua saúde e de sua alimentação, uma fatia de bolo com a família ou um amigo realmente não vai lhe prejudicar em nada. Não olhe para cada alimento como se ele fosse uma transgressão. Nem todos os alimentos que você come precisam ser “perfeitos” ou possuírem um baixo teor de gordura ou calorias o tempo todo.

– Pare de se julgar com base em suas escolhas alimentares. O que você come não define a pessoa que você é. Se você está acima do peso, por exemplo, vá com calma até atingir aquilo que lhe faria realmente feliz (tudo o que é duradouro leva tempo para ser construído).

– Aprenda com a experiência. Se você sabe que é uma pessoa muito esfomeada e, às vezes se descontrola, fracione suas refeições. Isso poderá ajudar-lhe a restituir seu equilíbrio. E, acima de tudo, observe seu lado emocional. Esse sim precisa de atenção.

E, finalmente:

– Identifique as coisas que você faz com amor. Lembre-se que a “culpa” nasce exatamente pelo fato de não estarmos verdadeiramente lá, presentes na hora da refeição, mas com a cabeça em outro lugar ou em outra preocupação.

Bem, o que eu quero dizer com tudo isso?…

Simples! Que a saúde e seu corpo (assim como a felicidade), na verdade, são um estilo de vida não definido por aquilo que você come, mas pelo que você, de fato, é, a maior parte do tempo.

Pense nisso!

Fonte: Dr. Cristiano Nabuco – http://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/

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Nayara Benevenuto
Nayara Benevenuto
Especialista em Terapia Cognitivo-comportamental com crianças e adolescentes. Atende: adultos, casais, famílias, crianças e adolescentes. Afiliada à Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC).

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