Nessa última semana, deparei-me com um instrumento muito curioso, apresentado como brinquedo para algumas crianças.  Confesso que não sabia da utilidade, apesar de já ter visto em algumas lojas. Estou falando do Hand Spinner ou Fidget spinner.

Meu esposo, em tom de risos, foi o primeiro a me falar sobre. Estávamos na clínica médica onde fazemos o acompanhamento de nossos filhos e ele me informou “é pra aliviar o estresse” e completou que foi feito por uma mãe de autista (era tudo que ele sabia). Já me assustei logo de cara,  não porque crianças não fiquem estressadas, sim elas ficam (estresse infantil pode ser traduzido em problemas físicos sem causas aparentes, como diarreias, náuseas, dores de cabeça e de estômago, além de distúrbios do sono)¹.

Aí vem o fim de semana e minha sobrinha aniversariante ganha um. Percebi que a desinformada era eu e, então, fui ler um pouco. Vi que esse é um “brinquedo” existente há mais de 20 anos. Li, também, que antes de ser “febre” no Brasil, já era “febre” na Europa e Estados Unidos. Em alguns lugares até proibidos por causar algumas desatenções em salas de aula².

A peça giratória foi criada pela norte-americana Catherine Hettinger, em 1993. Quanto ao objetivo, se você jogar no google verá vários: de tranquilizar as pessoas até trazer a paz mundial, já que quem usa, pode ficar mais calmo. De acordo com alguns dos achados, o hand spinner serve para ajudar pessoas com déficit de atenção, hiperatividade ou excesso de ansiedade, a se focarem em uma tarefa e liberarem algum do estresse acumulado durante o dia de trabalho ou de estudo, por exemplo.

Mas se é pra aliviar estresse e se crianças e adolescentes, bem como os adultos, se estressam, por quê o susto ou a preocupação? Porquê sou mãe e antenada nessa geração.

Se focarmos em um dos pontos positivos apresentados pelas leituras feitas, não veria problema algum no brinquedo: de acordo com algumas sugestões de uso, ele é melhor do que roer unha (onicofagia), arrancar fios de cabelos (tricotilomania), morder tampas de caneta ou apertar insistentemente alguns botões de canetas para aliviar momentos de tensão. Comportamentos irritantes, né? Mas, o problema que vejo são outros dois.

O primeiro: é não tratar quadros ansiosos ou de estresse necessários de tratamento. O brinquedo possui capacidade de abstração? Sim. Afinal o movimento faz com que a criança coloque o foco da atenção no brinquedo, criando uma capacidade de abstrair, nada diferente dos outros brinquedos que têm a mesma finalidade.

Importante ressaltar que não há base científica ligada ao brinquedo, e que para quadros de ansiedade e estresse onde faz-se necessário acessórios/atividades para alívio/auxílio é necessário uma avaliação adequada, bem como acompanhamento terapêutico para não transformar um objetivo de alívio em nova compulsão.

Importante destacar que os transtornos de ansiedade em crianças e jovens são comuns e constituem o maior grupo de problemas de saúde mental durante a infância, podendo causar efeito significativo no funcionamento diário.

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segundo: não ensinar aos nossos filhos a importância de ser e estar feliz/em paz consigo próprios, com seus próprios pensamentos e emoções. Esse, para mim é ainda mais importante (e um eterno aprendizado).

“Ah Pedrita, mas meu filho é saudável, então não vejo problema que ele ocupe seu tempo com essa atividade, já que ela é como outro distrator qualquer!”

O problema? Excesso de estímulos!

Não estamos nos permitindo tempo para ser. Não estamos permitindo a nós, nem a nossos filhos, tempo para os prazeres e as frustrações que o ócio pode nos proporcionar. E até mesmo, tempo para criar.

Sobre o excesso de estímulos, deixo aqui registrado o meu mea culpa. Quando meu primeiro filho nasceu, instalei um dvd no encosto do carro, para facilitar as viagens até a avó paterna (300km). Em outros momentos baixei para o tablet do pai alguns vídeos, atividades, para que enquanto eu estivesse estudando ou fazendo outros trabalhos em casa, pudesse distraí-lo com atividades interessantes.

Em nossos excessos de atividades, nos enganamos acreditando que esses distratores são os ideais. Não se engane com o interesse da criança pelos materiais superestimulantes.

Mesmo que eles gostem, pode ser prejudicial sim.

Nosso papel nisso? Assim como evitar o excesso de açúcar (risos) e também o de evitar o excesso de estímulo. As consequências do superestímulo podem realmente prejudicá-la tornando-a uma criança com déficit de atenção, ansiosa, irritada e agressiva4.

Montessori (médica e pedagoga italiana), acreditava que a educação é uma conquista da criança, entendendo que já nascemos com a capacidade de ensinar a nós mesmos, se nos forem dadas as condições. Segundo ela, não devemos estimular a criança, o mundo se encarrega disso.

O que um adulto preparado deve fazer é observá-la para perceber qual seu interesse e então propor chaves (atividades, brinquedos, etc) que a ajudem a entender o mundo em que vivem5.

E sobre ficar a sós com nossos pensamentos, caso não consigamos é um sinal de que precisamos buscar ajuda. É fundamental reconhecer nossos pensamentos, entendendo as emoções que cada um pode nos trazer.

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